Grêmio 0 x 2 Santos

Data: 28/08/2014, quarta-feira, 20h00.
Competição: Copa do Brasil – Oitavas de final – Jogo de ida
Local: Arena do Grêmio, em Porto Alegre, RS.
Público: 30.294 (28.091 pagantes)
Renda: R$ 814.899,00
Árbitro: Wilton Pereira Sampaio (Fifa-GO)
Auxiliares: Kleber Lúcio Gil (Fifa-SC) e Carlos Berkenbrock (Esp.-SC).
Cartões amarelos: Ramiro e Pará (G); Edu Dracena, Alison e David Braz (S).
Gols: David Braz (37-1) e Robinho (42-1).

GRÊMIO
Marcelo Grohe; Pará, Werley, Rhodolfo e Zé Roberto (Matías Rodríguez); Walace (Matheus Biteco), Ramiro e Giuliano; Luan (Alán Ruiz), Barcos e Dudu.
Técnico: Luiz Felipe Scolari

SANTOS
Aranha; Cicinho, Edu Dracena, David Braz e Mena; Alison, Arouca e Lucas Lima; Thiago Ribeiro (Alan Santos), Gabriel (Leandro Damião) e Robinho (Rildo).
Técnico: Oswaldo de Oliveira



Grêmio desperdiça chances, Santos vence no Sul e abre vantagem

Com gols de David Braz e Robinho, time paulista fez 2 a 0 em duelo válido pela Copa do Brasil, nesta quinta-feira

O Santos deu um passo enorme para se classificar para as quartas de final da Copa do Brasil. Nesta quinta-feira, o Peixe foi mais eficiente que o Grêmio: enquanto o Tricolor perdeu gols demais o jogo todo, a equipe santista chegou poucas vezes com perigo, mas as converteu e venceu por 2 a 0. Os gols foram marcados por David Braz e Robinho.

O Grêmio mandou em quase todo o primeiro tempo, mas perdeu chances demais e viu o Santos, nas duas chegadas que teve, abrir 2 a 0 nos minutos finais. Na etapa final, a pressão foi intensa do início ao fim, mas o Tricolor seguiu desperdiçando as inúmeras oportunidades criadas e acabou derrotado em casa.

Agora, o Grêmio só se classifica se vencer por três gols de diferença na volta, ou por dois gols, desde que marque ao menos três vezes. Os dois times voltam a se encontrar na quarta que vem, na Vila Belmiro. Pelo Brasileiro, o Tricolor recebe o Bahia na Arena, enquanto o Peixe visitará o Botafogo, no Maracanã. Ambos os jogos ocorrerão no domingo.

O jogo

Com forte apoio da torcida na Arena, o Grêmio tomou a iniciativa das ações. A primeira boa chegada veio aos quatro minutos, com Zé Roberto se projetando na área e chutando para defesa de Aranha. Dois minutos mais tarde, Giuliano recebeu de Barcos, fez fila na área santista e chutou raspando a trave. Aos 10, em mais uma boa jogada coletiva do Tricolor na frente da área rival, Giuliano chutou rasteiro, para fora, com Aranha dando apenas um golpe de vista.

O Santos tratava de cadenciar e jogar nos contragolpes. O primeiro veio aos 19, com Gabriel, mas Robinho escorregou na hora de finalizar e chutou torto. Na jogada seguinte, Dudu deu lindo de toque de calcanhar e ligou contra-ataque com Giuliano. O meia invadiu a área e passou para Luan, que chutou, livre, mas Mena tirou em cima da linha.

O Grêmio seguia melhor, jogando em alta velocidade. Aos 27, Dudu girou sobre a marcação e invadiu a área. O cruzamento rasteiro veio para Giuliano, mas Aranha defendeu no reflexo. Barcos tentou na sobra, a zaga cortou e Ramiro soltou a bomba, que explodiu na marcação. O Peixe, então, em sua primeira conclusão perigosa marcou: Lucas Lima cobrou escanteio, David Braz deu peixinho sozinho na área e fez 1 a 0. Aos 42, o segundo: Lucas Lima escapou pela direita e cruzou para Robinho. Ele chutou, a bola bateu em Werley, voltou para Robinho e entrou.

O Grêmio voltou do vestiário com Alán Ruiz e Matheus Biteco nos lugares de Luan e Walace, e sem o técnico Luiz Felipe Scolari, expulso ao final do primeiro tempo por reclamar de toque de mão de Lucas Lima no segundo gol do Peixe. Em sua primeira jogada, Ruiz deixou Rhodolfo na cara do gol, mas Cicinho impediu o arremate em grande recuperação. Aos 3, David Braz travou na hora em que Giuliano ia chutar, após ótima jogada de Dudu.

A pressão seguia forte. Aos 14, David Braz salvou de cabeça quando Rhodolfo chegava pelo alto. A seguir, Dudu recebeu pela esquerda e bateu para boa defesa de Aranha. Aos 17, Zé Roberto puxou contra-ataque e deu a Alán Ruiz, que bateu. A bola desviou na zaga e David Braz quase fez contra. Na jogada seguinte, Giuliano cruzou e Werley cabeceou com perigo. Aos 18, Barcos recebeu liberado na área e chutou, mas Aranha fez ótima defesa.

Aos 21, Alán Ruiz bateu falta rasteira e Aranha salvou com a ponta dos dedos. Aos 28, o goleiro santista foi corajoso ao disputar com Giuliano na pequena área após toque de cabeça de Rhodolfo. O zagueirão gremista subiu livre aos 34, mas deu de coco na bola e ela subiu demais. Aos 39, Rildo quase matou o jogo após entrar livre em contra-ataque, mas Marcelo Grohe salvou. Aos 44, foi Damião quem obrigou o goleiro gremista a um milagre.

Aranha relata ofensas racistas de torcedores do Grêmio na Arena: ‘Macaco’

“Negro fedido, preto, cambada de preto, depois começaram a fazer barulho de macaco”, contou o goleiro do Santos

A vitória do Santos por 2 a 0 diante do Grêmio na noite desta quinta-feira, em Porto Alegre, pela Copa do Brasil, foi ofuscada pelo racismo. O goleiro Aranha foi vítima de ofensas no segundo tempo por torcedores localizados atrás de seu gol na Arena do clube gaúcho, e chamou a atenção do árbitro Wilton Pereira Sampaio sobre o ocorrido. Uma câmera da ESPN Brasil flagrou uma garota chamando o jogador de “macaco”.

Após o jogo, Aranha deu seu testemunho sobre a atitude vinda das arquibancadas. “Da outra vez que a gente veio jogar, estava passando campanha contra o racismo no telão, não é por acaso. Eu estava no gol, xingar, pegar no pé, normal. Quando gritaram ‘preto fedido e cambada de preto’, eu tentei aguentar. Mas quando começou o corinho fazendo barulho de macaco, eu não aguentei. ‘Negro fedido, seu preto, cambada de preto’, depois começaram a fazer barulho de macaco. Pedi para filmarem o que estavam fazendo. É difícil, é duro, nunca imaginei passar por isso. Acho que mais importante é mostrar e registrar o que aconteceu aqui. Tenho consciência de que isso não parte da maioria da torcida do Grêmio. Sei que a intenção é desestabilizar, mas sou maduro o suficiente para manter meu comportamento em campo”, disse o goleiro.

O goleiro explicou também por que retrucou as ofensas e disse que foi mal interpretado pelo árbitro da partida. “Ele (o árbitro) veio falar que eu estava provocando a torcida. Quando me chamaram de macaco, de preto, bati no braço e disse que sou preto, sim”, revelou Aranha, lembrando que o fato acontece com frequência no Sul. “Não são todos, mas sempre tem um racista. Está dado o recado para ficarem espertos para a próxima partida.”

Aranha é o segundo jogador do Santos a ser alvo de ofensas racistas este ano. O volante Arouca também foi chamado de “macaco” por torcedores do Mogi Mirim em jogo pelo Campeonato Paulista, em março.

A acusação de Aranha à torcida do Grêmio também não é fato isolado. No começo deste ano, o zagueiro Paulão, do rival Internacional, também relatou ofensas após um Gre-Nal pelo Campeonato Gaúcho, no fim de março.




Grêmio é excluído da Copa do Brasil após julgamento por injúrias raciais ( Em 03/09/2014 )

Condenado de forma unânime por ofensas de torcedores contra Aranha, clube ainda pode recorrer ao Pleno do STJD; árbitro que não relatou em súmula leva gancho

O Grêmio está excluído da Copa do Brasil. A decisão ocorreu após julgamento no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) na tarde desta quarta-feira. Em quase quatro horas de sessão no Rio de Janeiro, os auditores resolveram, unânimes em 5 a 0, pela punição após denúncia feita pela procuradoria, baseada no artigo 243-G (e seus parágrafos) do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). O caso ocorrera na última quinta-feira, quando o goleiro do Santos Aranha foi alvo de injúrias raciais por parte de torcedores gremistas, no 2 a 0 do clube paulista, pelo jogo de ida das oitavas – a volta estava suspensa. Assim, o Peixe está classificado para as quartas do torneio e enfrenta o Botafogo, que venceu o Ceará nesta quarta-feira. A chave está paralisada até o julgamento no Pleno, uma vez que o Grêmio irá recorrer.

O clube foi multado em R$ 50 mil, mas não perdeu mando de campo por “ato discriminatório”. Os torcedores identificados praticando atos racistas serão impedidos de frequentar jogos do time gaúcho por 720 dias. A decisão não é definitiva. Cabe recurso, com novo julgamento em segunda instância no Pleno do STJD, a ser marcado em 15 dias.

O quarteto de arbitragem também fora denunciado pela procuradoria por não ter colocado o episódio relatado por Aranha na primeira versão da súmula. Wilton Pereira Sampaio acabou suspenso por 90 dias, enquanto os auxiliares pegaram gancho de 60 dias. O Grêmio ainda foi julgado por arremesso de objeto, e o Santos, por atraso na volta do intervalo, ambos levando multas de R$ 2 mil e R$ 4 mil, respectivamente.

Como foi o julgamento

O julgamento começou com o pronunciamento do presidente da sessão Fabricio Dazzi. Depois, a procuradoria apresentou provas em vídeo. Entre eles, reportagens de televisão e depoimento de Aranha. O mesmo foi feito pela defesa do Grêmio, que mostrou matérias de sites com as ações promovidas pelo clube, além de vídeos institucionais e depoimentos de jogadores, como Zé Roberto e Matheus Biteco.

O presidente Fábio Koff foi o primeiro a sentar perante os auditores para esmiuçar a posição do Grêmio sobre as injúrias raciais. Com larga experiência na magistratura, Koff tratou de exaltar os exemplos de ícones negros no clube e disse que a instituição foi “pioneira na integração racial”.

– Estou aqui para dizer que a decisão desta tarde ela tem uma importância histórica. A decisão atinge um clube com 111 anos de existência que atinge uma escolinha de 1,1 mil crianças, do qual um terço é de cor. O prejuízo causado a imagem do clube é irreparável. Se a pena ocorrer, deve ter sentido pedagógico e não ultrapassar limites – afirmou.

Koff também valorizou uma das ações de sua gestão, de cortar privilégios de organizadas. Na segunda, a direção anunciou a suspensão dos direitos da Geral do Grêmio.

– O Grêmio foi precursor em cortar subsídios de organizadas e dificultar o acesso de torcedores que se escondem num grupo. O Grêmio não dá ingresso, não paga ingresso, não facilita a vida – defende.

Também julgado, assim como seus auxiliares, por só relatar as injúrias raciais em adendo na súmula, o árbitro Wilton Pereira Sampaio afirmou que ficou “assustado” ao ver as imagens após a partida, no hotel. Em campo, confirma que não havia visto nem ouvido as ofensas e lembrou que em jogos da Copa do Brasil não há árbitros auxiliares atrás das metas.

– Não presenciamos nada, foi por meio de um relato do jogador. Após o término do jogo, nenhum atleta veio me questionar. Pensei que não havia sido nada. A gente sempre assiste ao jogo depois e fiquei assustado com o ocorrido. Por isso, incluí o adendo na súmula. Nós achamos que, aos 42 minutos do segundo tempo, com o Santos ganhando o jogo, achei que era uma tentativa de passar o tempo – relatou, em meio a forte cobrança dos auditores.

O árbitro negou que Aranha tivesse respondido aos torcedores com xingamentos:

– O atleta se virou para a torcida, bateu no braço e cuspiu no gramado.

– No momento em que nos viramos para a torcida, já não eram mais ofensas racistas, eram xingamentos normais de jogo – disse o auxiliar Carlos Berkenbrock, que falou depois de Pereira Sampaio.

O suprocurador geral Rafael Vanzin tomou a palavra para reafirmar que considera o Grêmio responsável. Segundo ele, episódios de cunhos racistas não são de hoje, e cita o caso envolvendo o zagueiro do Inter Paulão, alvo de injúrias raciais de um torcedor no Gauchão, também na Arena.

Ainda citou as postagens no Twitter, feitas pelo vice-presidente Adalberto Preis, em que alegou que Aranha fizera “grande encenação” no episódio. Por fim, pediu a exclusão do clube da Copa do Brasil, além de pena para o quarteto de arbitragem.

– As palavras de Patrícia Moreira, que ainda não prestou depoimento, assim como as imitações de macaco, são flagrantes – Rafael Vanzin. – E as medidas tomadas pelo Grêmio não são suficientes.

Na vez de os advogados do Grêmio defenderem o clube, a pauta foi a preocupação da instituição em campanhas sociais, a ajuda nas investigações policiais e a preocupação em afirmar que a ação foi obra de uma minoria.

– Não fechamos os olhos para o que vem acontecendo. Não vamos usar o Grêmio como bode expiatório, como uma caça às bruxas – disse o adovgado do Grêmio Gabriel Vieira. – O racismo é um problema social. Quantos auditores negros temos aqui? Nenhum.

– Quatro torcedores em meio a 30 mil. O Grêmio não pode ser responsabilizado. Eles, sim, precisam ser punidos – reforçou Michel Assaf Júnior, contratado pelo clube especialmente para este caso. – Não se pode confundir extrema gravidade com a repercussão do fato, nem reincidência.

Entenda o caso

O incidente no jogo entre Grêmio e Santos, na Arena do Grêmio, ocorreu aos 42 minutos do segundo tempo, quando Aranha reclamou com o árbitro Wilton Pereira Sampaio, alegando ter sido vítima de xingamentos por parte da torcida. O juiz mandou a partida seguir, mesmo sendo alertado por jogadores do Santos dos incidentes que ocorriam fora de campo.

A jovem mostrada pelas imagens do canal ESPN foi afastada do trabalho no Centro Médico e Odontológico da Brigada Militar. Patrícia Moreira era funcionária de uma empresa terceirizada e prestava serviços de auxiliar de odontologia na clínica da polícia militar gaúcha. As imagens da torcedora ofendendo o goleiro santista começaram a circular pelas redes sociais logo após a partida. Aranha registrou boletim de ocorrência na 4ª Delegacia de Polícia na sexta.

Diante da repercussão, Patrícia evitou dormir em casa nos últimos dias. Ela se refugiou em residências de parentes e amigos para evitar retaliação. Pedras foram jogadas em direção a sua casa na noite de sexta-feira. O GloboEsporte.com visitou a região na tarde de sábado e ouviu os vizinhos. Amigos negros da menina de 23 anos garantem que ela não é racista. Até agora, seis pessoas foram intimidas a depor, entre elas Patrícia.